ALINHAMENTO PLANETÁRIO

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PAU DE ARARA

PAU DE ARARA


ÊXODO

O sol logo cedo expandiu seus raios, maravilhando ainda mais a cidade do Rio de Janeiro. O domingo ficou convidativo: o sol, o céu e o mar seduziam os transeuntes. Os ônibus passavam lotados a caminho das praias.
A alegria patrocinava eufóricos rostos juvenis, num contagiante alarido que entoava e ecoava pelos cantos:
– Xô, bêbado, paraíba, jatobá, sai fora, peão de obra, que aqui não é teu lugar.
E continuava a babel de vozes, desatinando ainda mais aquele vulto maltrapilho, espreguiçado em uma das poltronas traseiras do veículo coletivo.
O bêbado nordestino, em meio a tanta algazarra, gritava palavras desconexas:
– Vô prá Arapiraca. Vô vortá!
E gritava mais alto, em contraponto com o coro mais forte. Repetiu o eufórico desatino, e já sem forças se cansou. Seu corpo estava entregue, sem controle, e as pálpebras permaneciam semicerradas. Numa próxima curva, seu corpo caiu para o lado. Melancólico, surrado, ele ainda resmungou:
– Droga, eles num qué mi dá passagi!
E logo começou a chorar baixinho, relembrando das bolas de sonho que o trouxeram àquele lugar, o “Eldorado do Brejeiro”, saído da roça e do arado.
As recordações eram fortes, e aquele tamborilar ritmado ainda ressoava em sua cabeça:
“- Xô, peão de obra…”
Sim, aquilo fora tudo que conseguira ser em todo aquele tempo de fome e horas mal dormidas. E passou a viver embriagado, injuriado pelo desemprego e lembranças de sua terra.
O ônibus parou. Já não havia tanta gente. Era a última parada. Motorista e trocador caminhavam ao seu encontro. Lá no canto, todo quebrado pelos solavancos, ainda balbuciava alguns sons guturais. Então, num repente, a voz altiva do motorista quebrou o silêncio:
– Vamos lá, bêbado caipira. Pula fora e vai se virar!
Motorista e cobrador o seguraram pelos braços e o atiraram bem longe, no barro enlamaçado.
Fim de linha, peão de obra.
Texto publicado na Revista O Especialista, em 15 de julho de 1981.

Luiz Gonzaga – Pau de Arara (1952)
Raimundo Fagner – Último Pau de Arara

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