sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Urbano Medeiros,direto de São João do Sabugi para o Mundo.Músico diz que Seridó é um pedaço do Oriente Médio

Vinícius Menna (Portal No Minuto)



Direto de São João do Sabugi para o mundo. Urbano Medeiros começou a aprender saxofone aos 7 anos, no colo do pai, no sertão seridoense. Desde que deu o primeiro sopro no instrumento, o músico já foi parar do outro lado do planeta, mas atualmente chegou à conclusão que o lugar para se aprender é o Brasil.

"No começo, eu tocava todo o repertório de Saraiva com 8 anos. Ele é um saxofonista que fazia muito sucesso na época. Era um alagoano que foi embora para São Paulo e estourou. Eu pegava tudo de ouvido, decorava", lembra Urbano Medeiros.

E completa: "A gente não tinha nem rádio. A fonte de informação que nós tínhamos na cidade era o serviço de som, na praça. Então eu ficava de 'butuca'. No momento que saía um choro de Saraiva, imediatamente eu pegava aquilo, com erro ou sem erro, mas tocava".

Segundo ele, alguns falavam na região que tinham influência dos Beatles de Charlie Parker, "torcendo a boca para falar".

"Era tudo mentira. A influência no Seridó era Luiz Gonzaga, Saraiva, Mota do Acordeon e principalmente as músicas que a gente tocava nas Filarmônicas, as bandas de música da minha terra, como a Filarmônica Honório Maciel. Aqueles dobrados, as marchas de procissão, os choros que foram passando oralmente, aquela coisa da rabeca, do improvisador da viola. E a fonte disso tudo é o Oriente Médio", comenta o músico.

Ele defende que existe uma ponte entre o Oriente Médio e o Seridó, através dos costumes, da comida, da cultura como um todo. "Tem comidas que a gente só come em determinadas épocas do ano", lembra.

Segundo o saxofonista, em viagem que fez à Turquia, ele ouviu uma canção local e achou que era de um poeta seridoense. Porém, quando foi ver a ficha técnica, viu que não era.

Segundo o saxofonista, há frases melódicas inteiras de Felinto Lúcio Dantas, de Tonheca Dantas e dele próprio que tem origem hebraica. "Se você fizer uma colagem, reconhece. Acho que é uma coisa até genética", opina.

O primeiro disco do músico que retrata a ponte citada por ele do Seridó com a Palestina é 
Orando com Efren da Síria. "Depois eu fiz o disco Do Seridó à Palestina", revela Urbano Medeiros.

Viagens pelo Brasil
O saxofonista comenta que já viajou bastante, mas acabou chegando à conclusão que a grande lição é o Brasil. "Acho que o brasileiro precisa descobrir o Brasil. O brasileiro não conhece o Brasil", opina.
"Acabei de passar uma semana na beira do Rio São Francisco, em Carinhanha, na Bahia. Palmas do Monte Alto. Quantas lições! Tem um velho lá, um homem paupérrimo e uma família numerosa. Esse homem tem umas mil músicas engavetadas", conta.

"Honorato Ribeiro. Historiador, autodidata, tocador de clarinete... velhinho, mas é um homem de uma cultura invejável", arremata.

Ele conta que em Carinhanha não tem teatro. Os grupos se reúnem debaixo das árvores que ficam à margem do Rio São Francisco.

"Tem uma árvore imensa que é o teatro da cidade. A gente deu concerto debaixo dessa árvore e o povo vai, prestigia", revela o saxofonista.

No período que ficou no município, Urbano Medeiros concedeu uma entrevista na rádio. Segundo ele, a população gostou tanto que repetiu a entrevista por três domingos seguidos. "Foi sobre a música instrumental. Eu falava e ilustrava ao vivo", diz.

Índios
Além da 
descoberta da espiritualidade, a viagem que o músico realizou ao Amazonas rendeu um contato inspirador com os índios. Ele foi para as bandas do Norte brasileiro como saxofonista do 1° Batalhão de Engenharia de Construção do Exército e passou um ano por lá.

Urbano Medeiros explica que 99% da população na cidade onde ficou radicado era indígena. "Por isso que eu voltei diferente de lá. Por causa dos índios. Muda tudo. A questão do desapego às coisas materiais, essa coisa de ver a vida por outro ângulo", comenta.

"O que vale para eles são os aspectos da ética, da moral, de ser um agente de transformação. O índio já tem isso por dentro. Podemos chamar isso de simplicidade voluntária", arremata.

O saxofonista conta que retorna sempre à região, em setembro, porque criou um projeto com crianças indígenas.

"Atualmente, tem um monitor que põe esse projeto para frente. São crianças paupérrimas. A gente mostra que é possível fazer uma flauta de bambu e tirar um som muito bonito dela e ainda construir uma orquestra", conta Urbano.

Ele explica que também há uma capacitação dos agentes de saúde da região sobre o valor da música para o enfermo.



FONTE: Vec

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